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sexta-feira, abril 05, 2019

Entrevista com Eskröta


Sem dever nada a ninguém e com muita gana e força de vontade, a Eskröta mete o pé na porta e enfia o dedo na ferida. Doa a quem doer, a mensagem é clara, direta e transmitida com sucesso. Assim é seu som, suas letras e sua conversa. Transparência nas propostas, fazendo o que gostam e sem puxar o saco de ninguém. Assim vão conquistando o merecido espaço no underground nacional. Após lançar o primeiro EP "Eticamente Questionável" (confira a resenha feita pela Morticínio Produções) no meio de 2018 e se apresentar ao lado de grandes nomes nacionais, a banda se reabastece e acelera no metal underground. Conversamos com a vocalista e guitarrista Yasmin Amaral sobre a história da banda, preconceitos, a cena underground, dentre outras coisas. Confira:

A Eskröta surgiu em meados de 2017 como um quarteto, mas acabou se firmando como um trio. O que pesou na decisão de permanecerem somente em três integrantes? A banda funciona melhor dessa maneira?

Yasmin: No início da banda, a ideia era que eu ficasse apenas como guitarrista e realmente houvesse quem se dedicasse ao vocal. Após a saída da Mars (ex-vocal), ainda fizemos um teste com a Letícia (S.U.C) e rolou super bem, porém com as viagens que estavam surgindo, a viabilidade de levar apenas 3 pessoas era bem maior. Além da questão de composição, que já estava bem alinhada entre nós 3 e inserindo uma outra pessoa, talvez isso bagunçasse um pouco nossa organização. Por isso, decidimos seguir como trio.

Em seus shows, logo de cara vocês se apresentam ao público como uma banda feminista. Na sua visão, o público respeita essa postura? O metal ainda é um ambiente conservador?

Yasmin: Muitas vezes somos aplaudidas, principalmente pelas mulheres que sempre estão fortalecendo a cena. Mas há uma grande parcela do público que ainda torce o nariz para isso e tenta “argumentar” conosco. O metal tem sua frente antifascista, mas tem muito conservador e é para essas pessoas que devemos mostrar que temos força com nosso som. Enquanto eles ficam irritados, nós alcançamos cada vez mais mulheres abordando temas feministas.

Por ser uma banda formada exclusivamente por mulheres, vocês sentem alguma diferença de tratamento por bandas, produtores ou público?

Yasmin: Com certeza. Ouvimos muitas vezes que só conseguimos tocar em alguns lugares e ter certas oportunidades por conta do nosso sexo. Pasme, mas já ouvimos isso de outras mulheres também. “Ah, banda de mulher é mais fácil, tem mais exposição…” - só de ouvir isso você já sente a diferença. Porém, não estamos há pouco tempo tocando, então já esperávamos esse tipo de comentário.

Como vocês enxergam a cena feminina no metal mais pesado atualmente? Há alguma banda na qual se inspiram ou simplesmente admiram?

Yasmin: A cena das bandas, produções e coletivos feitos por mulheres está simplesmente fantástica. De norte à sul do país, tem muita coisa boa. Estamos com uma parceria com a banda Afronta de Fortaleza, além dos selos Crust Or Die (Débora Molina), Perna Torna (Thaís Aguiar), Brutal Grind (Juliana Ornellas), Capilebre (Ju Ghazi) e por aí vai. Todas as bandas que se formam são uma inspiração para nós, seria injusto citar apenas cinco ou seis, por isso vou pedir para que a galera siga o perfil da União das Mulheres do Underground para conhecer as milhares que temos espalhadas pelo Brasil. De referências clássicas, o L7 e Hole são as bandas que mais ouvimos.

O crossover permite que vocês transitem mais entre estilos, participando de eventos de metal, hardcore, grindcore, etc. Há algum tipo de evento onde vocês se sentem mais “em casa”?

Yasmin: Essa é uma pergunta muito interessante! Quando decidimos que a banda seria crossover, pensamos justamente nisso, em poder participar de diferentes tipos de evento. Até o momento, os eventos que mais nos acolhem e nos tratam com dignidade são aqueles produzidos por mulheres, não importa se é o Bruxaria Fest (Brasília, diversos tipos de bandas) ou se é o Maniacs Metal Meeting (Rio Negrinho, evento de metal). Nos surpreendemos em ver que todos os estilos nos fazem ter essa sensação de conforto!

Como você mencionou, em 2018, a Eskröta foi uma das atrações do festival Maniacs Metal Meeting. Conte-nos sobre como foi a experiência e o convite para o evento.

Yasmin: FODA! Fizemos vários vídeos e stories acompanhando a viagem porque simplesmente não acreditávamos. Desde o convite feito pela Liziane (produtora do MMM), até a recepção na chácara, passagem de som, alimentação… Poucas pessoas sabem, mas esse festival é organizado majoritariamente por mulheres e isso é incrível. Foi um prazer poder conhecer bandas como Wargore, o Facada (pessoalmente), 7peles, a Steph (canal Flashbanger)... foram muitas pessoas, muito conteúdo bom para absorver em apenas 2 dias. Estamos muito gratas pela oportunidade!

Atualmente vocês estão se apresentando com diferentes bateristas pela ausência temporária da Miriam Momesso, integrante oficial da banda. Como foi e como está sendo a adaptação dos bateristas substitutos? Vocês tinham preferência por uma mulher para substituir a Miriam ou isso foi indiferente?

Yasmin: Com certeza, queríamos que outras mulheres fizessem parte da história da Eskröta, porém não é fácil encontrar quem esteja disposto a viajar com uma banda que não é sua. Nós entendemos isso e empatizamos. No momento, o Jhon França (Cerberus Attack) é quem está nos acompanhando até a volta da Miriam para o Brasil. Ele abre mão de muita coisa para estar conosco e isso nos emociona demais… Não poderíamos estar mais agradecidas.

Cada uma de vocês mora em uma cidade do interior paulista. Como é a logística da banda? É fácil conciliar horários para ensaios e reuniões?

Yasmin: Na verdade, eu moro em São Carlos e a Tamy e Miriam moram em Rio Claro, então é relativamente perto. Mas, antes de um ensaio, tentamos compor em casa, levar algumas ideias prontas para aproveitar o tempo de estúdio.

Como foi trabalhar com a guitarrista Prika Amaral da Nervosa na masterização do CD?

Yasmin: O EP como um todo foi uma experiência e tanto para nós. Gravamos tudo com o Léo (Surra) em 2 dias, ficamos meses trabalhando em timbres e efeitos. Porém, faltava a masterização. A Prika surgiu como um anjo! Combinamos com ela como seria feito esse trabalho e rolou maravilhosamente bem. Ela é uma excelente profissional, entendeu nossa proposta, nos deu todo o suporte, além de ser uma grande amiga nossa.

Eskröta - Eticamente Questionável (2018)

O primeiro registro de uma banda independente é sempre um momento marcante. O EP como um todo, atingiu às suas expectativas?

Yasmin: Superou nossas expectativas. Ele nasceu como um EP simples de divulgação, porém ele ficou muito completo, da forma com que a gente nunca sonhou… A gente canta as músicas e ainda se arrepia com as letras que escrevemos. Ver as minas cantando, usando camiseta no show, gritando conosco é indescritível.

Conte-nos um pouco sobre a gravação e produção de “Eticamente Questionável”.

Yasmin: Já dei uma palhinha ali em cima né, rs. Ainda éramos 4 quando gravamos com o Léo, em janeiro de 2018. Fomos para Santos e ficamos entre a casa dele e o estúdio Warzone. As gravações ocorreram praticamente 24 horas, a gente acordava de madrugada e já começava a gravar, porque só tínhamos um fim de semana. Com a saída da Mars, tivemos que reescrever todas as letras e regravar os vocais e por isso demorou um pouco mais do que esperávamos.

O viés ideológico da Eskröta nunca foi mascarado ou escondido. Por diversas vezes vocês se posicionaram contra determinados políticos e suas linhas de pensamento. Inevitavelmente, esses posicionamentos acabam trazendo atenções não desejadas. O que vocês podem nos contar sobre os haters da banda? Chegaram a ter alguma experiência mais desagradável?

Yasmin: Olha, as eleições de 2018 foram o pior período pra gente. Nós tocamos no dia em que o fascista foi eleito e isso nos deixou muito tristes, principalmente pelos ataques na nossa página, comentários gordofóbicos e machistas. Hoje ainda recebemos esse tipo de “crítica” no inbox, mas ignoramos e seguimos firmes no nosso propósito!

Muito obrigado pela atenção e tempo cedidos. Fiquem à vontade para falarem sobre algo que não foi mencionado. O espaço é de vocês.

Yasmin: Quero agradecer ao espaço que vocês sempre nos deram, é muito bom poder responder cada uma dessas perguntas com orgulho. Obrigada à todos que nos acompanham e podem esperar que 2019 ainda sai um full!

Confira o EP e o videoclipe da banda nos links abaixo:

EP Eticamente Questionável
Videoclipe Eticamente Questionável

segunda-feira, fevereiro 18, 2019

Entrevista com Dyingbreed

Dyingbreed - Death Metal (São Leopoldo-RS)


Uma banda relativamente nova, porém muito produtiva, com um foco bem definido, profissionalismo e seriedade, além da experiência dos músicos com outras bandas. Talvez esses sejam alguns dos segredos para a notoriedade que o Dyingbreed vem conquistando ao longo dos anos. Com apresentações em importantes eventos pelo país e ao lado de grandes nomes do metal mundial, a banda, fundada em 2012, chega ao seu segundo álbum de estúdio em grande estilo, equiparando-se a veteranos consagrados no metal nacional e internacional e galgando lugares altos na cena headbanger. O baixista Fabricio Bertolozi (ex-Horror Chamber) nos concedeu uma entrevista e falou sobre a história da banda, a cena local, perspectivas futuras e outros assuntos. Confira o bate-papo abaixo. 

O Dyingbreed foi fundado em 2012 no município de São Leopoldo-RS, mesma cidade dos veteranos do In Torment. O que vocês podem dizer a respeito da cena local?

Fabrício: A cena de Porto Alegre, mais especificamente do Vale do Sinos, sempre teve diversos nomes de peso na ativa. Com certeza todas essas bandas nos influenciaram muito para permanecer na luta de continuar fazendo nosso som. Aqui há uma grande variedade de bandas, tanto das antigas quanto das novas gerações, e isso com certeza agrega muito à cena como um todo.

O Rio Grande do Sul tem uma grande tradição em produzir grandes nomes do metal extremo. Vocês se sentem pressionados por algum tipo de comparação ou isso pode ser um incentivo para a banda crescer cada vez mais?

Fabrício: De maneira alguma. É comum as bandas serem reconhecidas por soarem como banda x, y, pois faz parte da influência da banda, e isso com certeza é um elogio. Creio que as próprias bandas underground acabem por influenciarem-se entre si também, o que neste caso é ótimo! Acho que nesse caso, toda comparação que tenha um intuito positivo é muito bem-vinda.

Vocês possuem bastante experiência na cena underground. Todos os integrantes já passaram por outras bandas, sendo algumas bem conhecidas na cena nacional, como Mental Horror e Horror Chamber. As bandas pelas quais passaram vão desde o Death, Thrash, Black até o Gótico. Esse leque de diferentes experiências e influências foram o que moldaram a sonoridade do Dyingbreed? Qual a importância de ter essa diversidade musical como bagagem?

Fabrício: Com toda certeza! Além das influências base da banda, como Morbid Angel, Deicide e Cannibal Corpse, por exemplo, cada membro possui sua experiência adquirida em trabalhos anteriores, bem como seus gostos particulares. Essa pluralidade de influências ajudam muito a banda aos poucos ir construindo a sua identidade, para que mesmo que toque Death Metal, seja um Death Metal oriundo de diversas raízes, mas com uma cara diferente. Talvez esse seja o maior desafio de novas bandas.

“Under a Black Sun” é o sucessor do primeiro álbum “Worship no One”. Como vocês comparam os períodos desses dois trabalhos?

Fabrício: Realizamos shows importantes durante a divulgação do álbum “Worship no One”, os quais nos ensinaram muito sobre quais os novos objetivos a serem buscados, além de nos dar a honrosa experiência de ter uma verdadeira aula de metal com bandas já consagradas no estilo. Esse amadurecimento foi muito importante para nós como músicos e como fãs de música, fazendo com que houvesse esse prosseguimento no trabalho.

Com relação à evolução musical, produção sonora e visual, qual foi seu nível de satisfação ao pegar o novo álbum em mãos?

Fabrício: Podemos dizer que estamos extremamente satisfeitos com o novo álbum. Tudo nele, visualmente e musicalmente soa como havíamos planejado e de forma diferente do “Worship No One”, mas igual em essência.

Dyingbreed - Under a Black Sun (2018)

O guitarrista Fabiano Penna gravou a introdução “Prelude to Annihilation”. Como era a relação de vocês com o músico e como foi essa parceria?

Fabrício: Conhecíamos o Fabiano especialmente por seus trabalhos com o Rebaelliun e o The Ordher, que são bandas muito importantes no cenário brasileiro e grande influência para nós também. Já tínhamos ouvido outras composições nesse estilo ‘’trailer music/soundtrack’’ que ele havia feito e tínhamos cogitado colocar uma intro no álbum novo. O Fabiano era um cara extremamente talentoso no que fazia, e demos a ideia inicial do que buscávamos e ele nos entregou o som pronto, exatamente como tínhamos imaginado. Para nós é uma honra ter uma composição dele no nosso álbum.

Vocês já dividiram os palcos com alguns gigantes do metal mundial, como Testament, Krisiun, Vader e Cannibal Corpse. Há algum momento mais marcante para a história da banda?

Fabrício: Acho que esse é o sonho de toda banda, tocar com seus ídolos. Somos muito felizes por essas oportunidades, gera uma vontade maior de prosseguir em frente e de buscar sempre uma evolução musical e pessoal. Além desses shows, podemos destacar ainda a abertura para o Behemoth em 2014 no Teatro Feevale. Foi um dos primeiros shows de maior parte que participamos, além da chance de tocar em um ambiente totalmente inusitado para o estilo.

Em 2014, o Dyingbreed fez parte do cast do Zoombie Ritual Open Air, um festival que prometia ser um dos maiores eventos de metal underground, mas acabou pecando em alguns aspectos e após cancelamentos de algumas das principais atrações, recebeu diversas críticas. Vocês, no entanto, foram bastante elogiados por público e mídia presente. Como foi essa experiência para a banda?

Fabrício: Apesar da frustração gerada pelos imprevistos causados pelos cancelamentos, o público, embora revoltado, demonstrou um grande apoio para as bandas que permaneceram no cast. Foi um dos melhores shows que já fizemos, a energia do público e demais bandas estava absurda. O Estado de Santa Catarina é conhecido por produzir grandes festivais, e o Zoombie nos abriu muitas portas, no sentido de muita gente do país todo conhecer um pouco do nosso trabalho.

Toda a concepção visual do álbum “Under a Black Sun” é de grande qualidade. Desde a execução da capa até o material usado no encarte, nota-se um cuidado especial com a apresentação do trabalho. De onde vem essa “preocupação”?

Fabrício: Desde o início desejávamos que o “Under a Black Sun” fosse um álbum distinto do “Worship No One”, ainda que ambos tenham eventuais semelhanças ou comparações. Procuramos buscar novos timbres, novos conceitos de estruturas musicais, imagem, enfim, fazer algo diferente. Acreditamos que como temos muito respeito pelo nosso trabalho, e com quem também o aprecia, devemos sempre buscar evoluir tanto na imagem do álbum quanto na sua música. Temos que aprender também com grandes bandas que investem nessa qualidade do material, e acredito que, mesmo a nossa realidade sendo a mesma de outras bandas underground, podemos sim evoluir e pensar de maneira mais profissional na apresentação do trabalho, ainda que a aspiração seja apenas tocar aos finais de semana, por exemplo. Atribuímos também essa mudança e cuidado com o material ao Fernando da Black Hole, que desenvolveu todo o conceito do encarte e nos orienta bastante em relação prática da publicidade e tudo que envolve um lançamento.

Rafael Tavares vem se destacando na cena do metal underground por diversas grandes obras. Como foi a escolha pelo artista e como foi trabalhar com ele?

Fabrício: O Rafael é um dos maiores artistas brasileiros do segmento, eu havia já trabalhado com ele anteriormente enquanto tocava com a Horror Chamber, pois a capa do álbum Eternal Torment é de autoria dele. Quando discutíamos sobre o conceito da capa pro álbum, o estilo dele foi uma escolha quase que imediata para conseguir passar o que estávamos buscando. Ficamos extremamente satisfeitos que nosso álbum tenha a participação de artistas diversos e talentosos.

Desde a demo “Killing the Image of Your God”, todos os seus trabalhos foram lançados através de algum selo, o que atesta para a grande qualidade musical do Dyingbreed. O último trabalho se deu através da parceria Black Hole Productions/Rapture Records. Falem um pouco sobre sua relação com os selos e o convite para o lançamento do segundo full-length.

Fabrício: O Geni e a Rapture Records estão com a DyingBreed desde o lançamento da demo citada, e só temos a agradecer pela longa parceria firmada. A parceria com a Black Hole Productions é mais recente, e já havíamos trocado ideia com o Fernando que posteriormente, nos propôs a ideia do lançamento. Os frutos que estamos colhendo desta nova e antiga parceria estão excelentes, e desejamos que esses laços perdurem por muito tempo.

Quais são os futuros planos e o que vocês gostariam de alcançar a curto e longo prazo?

Fabrício: No momento, além de alinhar alguns shows para divulgar o álbum, a banda iniciará ainda este ano a gravação de um clipe de um som do álbum novo. Paralelamente, já estamos escrevendo alguns riffs novos para futuras músicas.

Parabéns pelo ótimo trabalho que vem fazendo, especialmente pelo novo álbum. Muito obrigado pelo tempo cedido. O espaço é de vocês.

Fabrício: Nós que agradecemos muito o espaço e o interesse pelo nosso trabalho, muito obrigado! A todos que quiserem conferir nosso som, adquirir material ou ainda contato para shows, nossa página no Facebook é http://fb.com/dyingbreeddeathmetal.
Prestigiem as bandas de suas cidades e de seu país, há muito som de qualidade por aí!

:: Confira  a resenha de "Under a Dying Sun" feita pela Morticínio Produções. ::

terça-feira, janeiro 29, 2019

Entrevista com Crystal Lake


Fundada no ano de 1999 na cidade de Leme, interior de São Paulo, a cerca de 200 quilômetros da capital paulista, o Crystal Lake é daquelas bandas que tem a paixão pela música e pelo som pesado como alicerce. Bebendo de fontes da nova e da velha escola, construíram uma identidade forte com o Thrash Metal falando alto e batalham contra as dificuldades de se manter uma banda ativa após tanto tempo. Batemos um papo com o baterista e um dos fundadores da banda, Heraldo Habermann. Confira a entrevista abaixo: 

No próximo ano, a banda completará vinte anos de sua fundação. É uma data importante para os irmãos Habermann, que são membros desde o início? Vocês pensam em algo especial para comemorar a data?

Heraldo: Cara, fazer metal no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, profissionalmente ou não, não é tarefa fácil e completar 20 anos de estrada, mesmo com um hiato de alguns poucos anos é uma satisfação enorme. Com certeza queremos fazer um evento bem descontraído, chamando para participar amigos e antigos membros da banda desse período todo. Churrascão e muita diversão, acho que essa seria a melhor forma de carimbar essa data tão importante, ainda mais com um novo álbum ou EP para comemorar a data sendo lançado nesse evento. Estamos focados para que dê certo. Tomara que as coisas fluam para de fato acontecer.

Falem um pouco sobre o início da banda, no fim dos anos 90 e como era a cena de Leme e região naquela época.

Heraldo: Leme sempre teve uma cena muito forte desde os anos 80 e algumas bandas que marcaram época, como o caso dos Destróçus, Inner Fear, Techton, Leviathan e o inicio do Claustrofobia, hoje banda internacionalmente conhecida e teve sua base em Leme, dentre outras que foram total influência pra gente. Começamos aprendendo a tocar e já nos primeiros ensaios e dentre alguns covers começamos a criar. Ser banda autoral desde o início foi o objetivo. Somos gratos por ter começado em Leme, pois a cena do interior de São Paulo sempre foi muito forte e contribuiu muito para a banda conseguir ter um nome e se segurar no undergound. Ribeirão Preto era uma segunda casa pra gente. Ótimos tempos!!

Vocês batizaram seu primeiro registro de “Born to the Underground” e no encarte, existe a frase “A união das bandas fortalece o underground”, aparentemente uma mensagem valorizando e pedindo união na cena headbanger. Como vocês enxergam essa união nos dias de hoje?

Heraldo: Cara, antigamente era mais “difícil” ter contatos com pessoas de outras cidades, outras bandas, conseguir tocar, mandar matéria pra ser chamado e ser conhecido. E a galera pra conseguir conhecer um som das bandas da região tinham que ir até o show pra comprar o material e levar para casa e a união de uma banda de uma cidade com a de outra fazia tudo acontecer. A cena se fortalecia. Metal nunca foi e nunca será competição. Hoje em dia acho que até melhorou nos últimos anos, mas no início da internet e como ela é hoje, a cena deu uma caída, pois era muito fácil ouvir as bandas, as mesmas tinham mais facilidades de gravar e conseguir divulgá-los, não dependendo muito de uma apoiar a outra. Muitos eventos tradicionais deixaram de existir pois o público já não ia com tanta frequência, pois era fácil ouvir em casa. Hoje parece que uma pequena resistência de bandas se uniu pra turnês e começou novamente, onde uma ajuda a outra para as duas poderem tocar, dividindo custos e tudo mais.

Por que a banda ficou tanto tempo parada e o quê os motivou a voltar?

Heraldo: O Crystal Lake nunca acabou, mas motivos profissionais de todos os integrantes na época estavam fazendo com que ensaiássemos menos, tocássemos menos e também pelo tempo juntos com ninguém sendo mais “muleque” descompromissado acabava desgastando um pouco e não sendo prazeroso como já tinha sido um dia, pois a cabeça dividia a diversão com compromissos pessoais. Poucos ensaios e as apresentações não tinham aquela energia e após 11 anos ininterruptos demos uma pausa. Pausa natural, sem ser combinado, simplesmente aconteceu de ficar sem nos encontrar por meses e ai acabou ficando em pausa.
Voltar também foi um processo natural. As coisas foram se encaixando na vida pessoal de todos e de um ensaio para brincar, totalmente enferrujados, acabou virando parte das nossas vidas novamente. Felizmente!!

Como foi estar de volta aos palcos após cerca de cinco anos afastados?

Heraldo: Frio na barriga, adrenalina e uma felicidade extrema, foi essa a minha sensação em particular. Ali estava novamente fazendo o que gosto de fazer, mas sem o peso e o estresse de outros tempo. Pura diversão a serviço do metal, sensação de manter a cena e a história viva.

Como vocês comparam a época de lançamento do “Terror Machine” com o lançamento do “Death Row”? Há planos para lançamento físico do novo álbum?

Heraldo: Terror Machine é um álbum muito importante pra gente. Estávamos, acredito eu, na melhor forma e com o foco total na banda. Ensaiando sempre, focados em fazer um bom trabalho. Trabalho esse que poderia ter sido melhor realizado devido a nossa falta de experiência em estúdio e gravação profissional. Acho que a grande diferença do Death Row foi a produção e a descontração no processo de criação e gravação. A produção ficou a cargo de Daniel Bonfogo, hoje ex-baixista do Claustrofobia. Acredito que foi fundamental toda a experiência que ele trouxe pra gente durante todo o processo.

Crystal Lake - Death Row (2018)

O som do Crystal Lake tem uma base de Thrash Metal, mas há elementos de Hard Core, Death e até Heavy Metal em suas composições. Mesmo com alterações na formação, a essência da música é a mesma desde a demo “Born To The Underground”. A que se deve essa “fidelidade musical”? É algo planejado do tipo “vamos compor somente material nessa linha” ou as coisas fluem naturalmente? Por fim, fale um pouco sobre o processo de composição.

Heraldo: Acho que flui naturalmente. Desde a demo em 2003 a banda criou essa identidade. Após isso o guitarrista Murilo Januário assumiu as cordas e parece que ele já cria os riffs pensando em como eu costumo realizar minhas linhas de batera. Aliás ele é o maestro e o grande criador das primeiras notas. O resto a banda vai fazendo sempre juntos, mas geralmente é ele que chega com as principais ideias.

Ainda que a essência da banda seja a mesma, a banda soa diferente, mais madura talvez, em “Death Row”. Essa diferença se deu graças à produção do álbum? Como foi trabalhar com Daniel Bonfogo produzindo o CD?

Heraldo: Sim, acredito que a produção tem muito a ver com o resultado final. Foi totalmente diferente, descontraída e entre amigos de infância o que facilitou demais. O Daniel teve muita paciência com os “velhos enferrujados” (risos).  Fizemos a pedido dele uma pré-produção, onde realmente ouvimos como estava soando nosso som e isso fez toda a diferença. Ele não participou das composições, mas durante as gravações lapidou muita coisa. Foi bem legal contar com a experiência dele.

Vocês já estiveram três vezes ao lado do Krisiun e já foram a banda de abertura do Paul di Anno, ex-vocalista do Iron Maiden, além de já terem se apresentado ao lado de grandes nomes do metal underground. Como foram esses momentos para vocês? Há algum especialmente marcante?

Heraldo: São momentos realmente marcantes, principalmente quando se é mais novo, pois estar cara a cara com pessoas que te influenciaram durante sua formação é incrível. Pra mim em particular um momento especial foi em 2004 em Vinhedo/SP na casa de shows chamada Adler, pois era o primeiro grande show que fiz com a casa lotada e ao lado de uma das maiores bandas de Death Metal do Brasil e do mundo, o Krisiun. Ter camarim com tudo que as bandas tem direito, ver estrutura de palco, som, iluminação, telões em torno do palco. Realmente foi uma noite incrível.    

Em 2007, vocês estiveram no Estado do Acre. Como foi a experiência de se apresentar em um local tão longe de casa e pouco assediado por grandes eventos de metal? Há alguma diferença de público, organização de shows, etc?

Heraldo: Cara, a cena lá é incrível!!! Os caras realmente curtem metal e se desdobram para os eventos acontecerem. Conhecemos algumas lendas da região, caras que vivem pelo metal e rock and roll desde sempre. Galera unida que mantemos contato até hoje. A casa onde aconteceu nosso show estava lotada, mesmo com muita chuva e a galera curtiu do começo ao fim o evento. De verdade, sabíamos que estava em um estado tão longe de São Paulo, porém não notei diferença da cena de lá e daqui. Talvez lá a galera até dê mais importância e apoio aos eventos do que os Headbangers de internet que temos por aqui (risos).

Quais são os planos da banda para um futuro próximo?

Heraldo: A ideia é existir e sempre contribuir para que a cena e o metal nunca perca suas forças. Todos temos nossos compromissos pessoais mas gostamos do que fazemos. Ensaiar, gravar e tocar ao vivo quando nossas agendas pessoais nos permitir é o que vamos fazer e espero que por mais 20 anos ou mais (risos).

Muito obrigado pelo tempo cedido. Desejamos muitas conquistas e sucesso à banda. O espaço é de vocês.

Heraldo: Agradeço o apoio incondicional do Morticínio desde os anos 90 e por sempre estar divulgando bandas e o metal nacional. Vida longa ao Crystal Lake, vida longa ao Morticínio e claro ao Metal nacional!!

terça-feira, agosto 22, 2017

Entrevista Com Sangrena


Com as raízes profundas e firmes no Death Metal, quase duas décadas de luta e composições brutais e com um novo álbum prestes a ser lançado, o Sangrena se prepara para mais uma batalha. O álbum "Hunter", segundo na carreira dos paulistas deverá ser um dos marcos mais importantes em sua trajetória. Conversamos um pouco com a banda sobre projetos novos e antigos, shows e a cena nacional. Confira abaixo. 

Em março deste ano vocês lançaram o álbum “Blessed Black Spirit” em formato K7, encerrando o ciclo deste trabalho através do selo Rock Clube Live. Como surgiu essa ideia e como está sendo para vocês relançar o trabalho mais importante para a banda (até aqui) neste formato?

Foi uma iniciativa do Francisco Jr., proprietário do selo Rock Clube Live. Ele chegou com a ideia e concordamos na hora. Sempre curtimos muito o formato K7, lançamos nossa primeira demo nesse formato e fizemos muita troca de K7 por correspondência. Foi muito interessante termos outro lançamento em K7 quase vinte anos depois. Curtimos pra caralho e espero que a gente tenha mais lançamentos nesse formato no futuro.

O Sangrena é conterrâneo do Executer, tradicional banda de Thrash Metal. Contem um pouco sobre a cena atual de Amparo e da região.

Sim, o Sangrena foi formado em Amparo. O Executer é uma grande referência não só para a cena Amparense mas para todo o Brasil. Uma das melhores bandas de Thrash nacional.
A cena em amparo é como na maioria das cidades pequenas, poucos mas reais Bangers que apoiam o movimento underground extremo. Sempre deram muita força às bandas locais e somos muito gratos a todos eles. Hailz irmãos!

Em 2015 vocês gravaram o videoclipe da música “Infernal Domination” com uma produção incrível e com qualidade poucas vezes vista por aqui. Gostaríamos que vocês nos contassem um pouco sobre as gravações, a escolha da atriz que interpretou a freira e aquelas cabeças decapitadas dignas de séries e filmes. (Clique aqui para assistir ao videoclipe)


Também gostamos muito do resultado. Conhecemos o diretor Felipe Filgueiras através do estúdio Mix Music e conversamos a respeito de produzirmos um videoclipe para a música Infernal Domination e ele pirou na ideia. Passaram alguns dias e ele já veio com o roteiro e logo em seguida já começamos as filmagens. A escolha da atriz, as peças de corpo e todo o resto ficou a cargo do Felipe, ele foi o responsável pela qualidade do vídeo. É um excelente profissional.

A música “Deceptive Redemption” divulgada por vocês através de um Lyric Video, mostra uma sonoridade um pouco diferente da encontrada no álbum “Blessed Black Spirit”. Um Death Metal mais old school. O álbum também segue essa linha? O que vocês podem nos falar sobre as composições do “Hunter”? (Clique aqui para assistir ao lyric video)

Quando compomos não costumamos direcionar muito, as músicas saem naturalmente. Acredito que as músicas do Hunter estão mais diversificadas. Tem partes bem extremas, mais rápidas que as do "Blessed...", em contrapartida também temos partes mais cadenciadas e pesadas que dão um ar mais “old school” como você falou. Testamos sonoridades que nunca tínhamos usado antes e ficamos satisfeitos com o resultado.

Quais são os planos e expectativas para a divulgação do novo álbum?

Se tudo der certo o Hunter será lançado no segundo semestre desse ano. Temos o plano de sairmos em turnê pelo Brasil, revermos amigos de SP e de outros estados e tocarmos em lugares que ainda não tivemos oportunidade.

Em 2018 vocês atingem a marca de vinte anos de metal extremo. Olhando para trás, qual é o balanço que conseguem fazer após todo esse tempo?

Quando uma banda se mantém por vários anos no underground, se adquire uma percepção muito ampla da cena. Ao longo desses anos conhecemos vários guerreiros que realmente fortalecem todo o cenário extremo. A cada dia que passa, percebemos a nossa necessidade de nos expressarmos nessa arte. Foi e ainda é um caminho de muitas batalhas, a guerra é longa, mas é muito gratificante.

Como vocês avaliam a união do underground hoje em dia no Brasil e como vocês participam nisso?

Antes de pensarmos na união do underground precisamos trabalhar o nosso apoio individual ao cenário. Muitos headbangers que realmente curtem e se identificam com as bandas estão deixando de comprar o material delas, discos, camisetas, etc. O mesmo acontece com Zines impressos que são fontes muito importantes de informação no underground. Precisamos valorizar o artista local, a banda do seu bairro, da sua cidade, da sua região, do seu país. Acredito que quando tudo isso acontecer a união será inevitável.

Vocês já tiveram a oportunidade de se apresentar ao lado de bandas gringas de renome, como Coroner e o Nile. Como foram essas experiências para a banda e como foi  a recepção do público ao Sangrena nessas ocasiões?

Foram experiências muito interessantes. Tivemos a oportunidade de tocar com uma estrutura melhor do que a habitual e um público maior também. Apesar do público estar lá pra ver a banda principal tivemos uma boa recepção em todos as aberturas que fizemos.

Entre 2014 e 2015 em meio à turnê de divulgação do “Blessed Black Spirit”, vocês se apresentaram em diversas cidades. A maioria do Estado de São Paulo, mas também passaram por Rio de Janeiro e Minas Gerais. Qual a experiência que vocês conseguem tirar de uma turnê como essa?

Em cada show a gente aprende alguma coisa, adquire experiência. Conhecemos muita gente nessa turnê que agregaram valor ao Sangrena. Muitos guerreiros reais do underground que nos incentivam a continuar nessa guerra. Tocamos com muitas bandas que compactuam das mesmas dificuldades e satisfações que a gente e essa troca de experiências é fundamental para o fortalecimento da cena. Estamos muito ansiosos para repetir essa experiência com o lançamento do “Hunter”.

O lançamento de um novo álbum certamente é o ponto alto na carreira de uma banda. Como vocês comparam a época em que o “Blessed Black Spirit” ficou pronto com agora, às vésperas do lançamento do “Hunter”?

A ansiedade é a mesma. O Blessed Black Spirit tinha um agravante, era o primeiro álbum, não sabíamos como seria a recepção do público, mas estamos na expectativa agora com o Hunter também. Nós estamos muito satisfeitos com o resultado e esperamos que ele seja bem aceito entre os Bangers.

Muito obrigado pelo tempo cedido. Desejamos muito sucesso com o Hunter. Fiquem à vontade se quiserem enviar uma mensagem aos headbangers que acompanham seu trabalho.

Muito obrigado pelo espaço cedido ao Sangrena. Pode contar com a gente sempre que precisar. Muito obrigado também a todos os reais Headbangers que fortalecem o Metal Extremo, continuem comparecendo nos shows e adquirindo o material das bandas. Esperamos nos encontrarmos na estrada. Hail!

Links da banda:

sexta-feira, agosto 11, 2017

Entrevista Com Funeratus

Gustavo "Guru" (bateria), Fernando (baixo e vocal) e André (guitarra)

Desde 1993 honrando o metal extremo nacional, sem nunca se venderem, composições rápidas, técnicas e brutais e shows com muita energia. Tudo isso fez do Funeratus um dos principais nomes do Death Metal brasileiro. O trio se prepara para lançar o novo álbum "Accept The Death" (que deverá ser lançado ainda este ano). Confira o bate papo que tivemos com a banda, onde falamos sobre sua trajetória, futuro, dificuldades, novo álbum e muito mais. 

O Funeratus está na estrada há vinte e quatro anos. Com certeza, vocês já passaram por inúmeras situações, altos e baixos, etc.Quais são as principais dificuldades para se manter com a mesma banda há tanto tempo?

Funeratus: Uma das principais dificuldades é conciliar as atividades da banda com as atividades profissionais, familiares, entre outras. Outra questão muito importante é manter os integrantes da banda em sintonia, de maneira espontânea e natural, pois todos têm que estar com o mesmo objetivo para que a banda possa se manter ativa. Nós estamos com a mesma formação há 16 anos, isso se deve ao fato de sermos amigos e respeitarmos muito um ao outro.

Mas nem tudo são dificuldades... Quais são as vantagens de estar há mais de duas décadas no underground e há tanto tempo com a mesma formação?

Funeratus: A grande vantagem é que, com tantos anos trabalhando juntos, hoje é mais fácil tocar pois temos um entrosamento muito forte além de termos evoluído na questão de equipamentos. Hoje também sabemos quem é quem na cena, pois já vimos passar muitas modinhas, pessoas que falam muito e fazem pouco, portanto temos muito orgulho em nunca ter parado durante esses 24 anos de banda.

Como foi fundar uma banda de metal extremo no início dos anos 90 no interior de São Paulo?

Funeratus: Foi muito difícil, pois na época a banda nem tinha um baterista fixo, então tínhamos que ficar correndo atrás de alguém para tocar conosco. Mal sabíamos tocar nossos instrumentos, mas sempre acreditamos no Metal , em nossos amigos e fãs da banda que fizemos ao longo dessa jornada, sem o apoio dos fãs jamais teríamos chegado tão longe com o Funeratus e por isso estamos aqui até hoje.

Além da tecnologia de equipamentos, quais são as diferenças mais notáveis entre a época em que a banda começou e agora?

Funeratus: O que notamos é que na época o público era mais fiel ao underground, ao contrário de hoje que o pessoal tem o acesso fácil a muitas bandas e acabam não valorizando a cena como um todo.  Na década de 80 e 90 era mais difícil conseguir material de bandas que você gostava, isso fazia com que a cena fosse mais unida e forte. Aquela época de trocar material pelo correio era incrível! Acho que outra coisa que vale citar, é como as turnês no final dos anos 90 e começo de 2000 eram feitas praticamente dependendo de ônibus de linha, nós fizemos duas grandes turnês no Brasil nessa época (2001 e 2004) e também em alguns países da América do Sul, rodando tudo de busão. Hoje em dia já existem pessoas e empresas especializadas em turnês, com vans ou ônibus, o que facilita e muito uma turnê pelo país. Essa evolução é muito gratificante e nós continuamos firmes e vivenciando essa mudança!

O último trabalho inédito foi o “Vision From Hell” lançado em 2009 e em 2015 vocês relançaram o “Storm of Vengeance” e o “Echoes In Eternity” em uma compilação. Como estão os preparativos e a expectativa para o novo álbum? Há uma previsão de lançamento?

Funeratus: A expectativa é a melhor possível, pois já estamos tocando algumas músicas novas nos shows e a receptividade tem sido excelente. Acreditamos que esse será o melhor trabalho já lançado pela banda, pois demonstra um trabalho de anos de dedicação e busca pela melhor sonoridade. A previsão de lançamento do álbum Accept the Death é para o final de 2017.

Novo álbum "Accept the Death" (capa de Alcides Burn)

São oito anos desde o lançamento do EP e dezesseis anos com a mesma formação. Todo esse tempo juntos leva a um grande entrosamento e a uma óbvia evolução musical e pessoal. Como vocês avaliam o novo material que fará parte do próximo álbum? E ainda falando sobre uma evolução pessoal, a forma como vocês trabalham e compõem as músicas mudou de alguma maneira ao longo dos anos? Como é esse processo pra vocês?

Funeratus: O novo álbum soa muito mais maduro e coeso, mantendo o feeling do Funeratus, além de estarmos tecnicamente melhores em nossos instrumentos. O EP “Vision FromHell” foi um experimento onde testamos um novo modo de compor e uma nova configuração nos instrumentos de cordas, atingindo uma afinação mais baixa o que deixou nosso som mais pesado. Para o novo álbum mudamos um pouco a maneira de compor, por exemplo, duas músicas foram criadas na bateria primeiro, para depois adicionar as melodias e harmonias dos instrumentos de cordas.  No inicio de tudo, éramos apenas o Fernando e o Andre, e tínhamos sempre um terceiro integrante nos auxiliando......A CACHAAAAAÇA ....Na demo The Baptism as musicas foram compostas dessa forma, guitarra, bateria ( tocada pelo Fernando) e varias garrafas de vodka....kkkkk

Haverá alguma diferença na linha que a banda seguia? O que os fãs da banda encontrarão pela frente?

Funeratus: Basicamente não há diferença na linha de som do Funeratus, o que os fãs poderão encontrar é uma banda mais sedenta e focada em fazer Metal Extremo, além de músicas com maior originalidade fugindo dos padrões atuais de bandas do gênero.

Todo esse tempo de estrada já colocou o Funeratus no mesmo palco de gigantes do metal nacional e mundial, como Krisiun, Sepultura, Carcass, Morbid Angel, etc. Como é para uma banda que começou no interior de São Paulo dividir o palco com lendas como essas?

Funeratus: Realmente é uma grande honra em ver nosso trabalho atingir uma proporção tão grande, pois quando começamos a tocar nosso sonho era fazer apenas um show, então essas conquistas soam como um troféu que ganhamos com nosso próprio esforço sem nunca pagar jabá pra tocar e nem ser puxa saco de ninguém.

Existe algum show ou alguma banda com a qual tocaram juntos que ficou marcado para todos?

Funeratus: Sem dúvidas o show com o Morbid Angel em Santiago no Chile em 2004 foi algo inacreditável para todos da banda, pois dividimos o palco com a maior banda de Death Metal da história e aprendemos muito nessa oportunidade.

Por volta de setembro do ano passado, vocês foram forçados a fazer uma pausa devido ao estado de saúde do baterista Guru, que chegou a ser bem preocupante. Como foi esse período da sua recuperação e qual foi a impressão da banda no retorno aos palcos?

Funeratus: Nós tivemos que adiar algumas datas da banda durante esse período de recuperação, que foi uma fase em que tive que ter muita paciência e maiores cuidados com a saúde, pois estava vivendo em excessos o que causou este meu problema de saúde. Mas hoje estou 100% recuperado e cada dia mais focado em tocar.  Nosso retorno aos palcos foi em Leme na sede do Kaiowas Moto Clube numa noite incrível, com casa cheia e o público nos apoiando e batendo cabeça do início ao fim do show, esse tipo de coisa não tem preço que pague.

Como está a agenda da banda atualmente? Há planos de uma turnê para divulgar o novo álbum? Podem acontecer shows fora do país?

Funeratus: Por enquanto como estamos terminando as gravações do novo álbum, temos feito apenas um ou outro show na nossa região, porém após o lançamento do álbum “Accept the Death”, com certeza faremos o máximo de shows possíveis por todo país, além de uma possível turnê no exterior.

Pra finalizar, gostaria de dizer que é uma honra e sempre um prazer poder conversar e dessa vez entrevistar o Funeratus. Deixo aqui o nosso muito obrigado por esse tempo cedido. O espaço é de vocês.


Funeratus: Muito obrigado Flávio, e Morticínio Produções pelo espaço cedido ao Funeratus. Agradecemos também a todos que cederam um pouco do seu tempo para ler esta entrevista. Nós estamos muito felizes com a fase que a banda está vivendo, na expectativa do lançamento do álbum que inclusive já tem a capa feita pelo Alcides Burn e já virou o novo modelo de camiseta que está disponível para venda em nossa fanpage do Facebook (facebook.com/funeratusdeath).Obrigado a todos os fãs, amigos  e produtores que sempre nos apoiaram...este próximo lançamento é de todos aqueles que sempre acreditaram no Funeratus !!! Nos vemos na estrada!

Nova camiseta à venda no Facebook da banda

quarta-feira, maio 03, 2017

Entrevista com Boka - Ratos de Porão

Mais de três décadas de pancadaria sonora, dedos nas feridas da sociedade e reconhecimento nacional e internacional. Falar sobre o Ratos de Porão sem soar repetitivo é uma tarefa árdua, pois todo brasileiro fã de metal, punk e hardcore conhece a banda e sabe da sua enorme importância para a cena nacional. Conversamos com o baterista Boka sobre a carreira do Ratos, formações da banda, política, sociedade e outras coisas. Confira o bate-papo abaixo, publicado originalmente no site parceiro Portal do Inferno. 


Morticínio Produções: São trinta e seis anos desde a fundação e trinta e três anos desde o primeiro álbum. Muitos de seus fãs ainda não eram nascidos quando o Anarkophobia, já em 1991, foi lançado e com certeza, alguns não chegaram a ver o lançamento do Carniceria Tropical, pois este também já tem vinte anos de história. Como é para uma banda como o Ratos atingir mais de uma geração de fãs?

Boka: Este sempre foi um dos motivos da banda continuar, se não tivéssemos mais gente nova interessada na banda, nossos shows já estariam muito vazio desde o final dos anos 90. Outra coisa é a resistência do underground e dos estilos de músicas mais extremas através das décadas. Talvez seja algo que jamais acabe. Quer saber a verdade? Para nós é um prazer e uma alegria muito grande poder estar a tanto tempo tocando numa banda tão foda quanto o Ratos de Porão.

Morticínio Produções: Desde a chegada do Juninho, essa é a formação mais duradoura da história da banda. Antes dele, o Ratos chegou a ter vários baixistas. Por que essa formação tem dado tão certo? É a melhor formação que a banda já teve?


Boka:
 Na verdade o Juninho é um cara de fácil convivência, gosta muito do que faz e tem vontade sempre, como músico, ele tem muita qualidade e certamente agrega para a banda. 
Os outros baixistas que passaram pelo Ratos com exceção do Jabá, pediram pra sair, houve alguns problemas e talvez tenha sido a melhor decisão que eles tomaram. Vida que segue…

Morticínio Produções: Vocês gravaram versões em inglês de alguns álbuns, mas deixaram essa prática para trás. O último álbum, Século Sinistro ainda contém no encarte traduções para o inglês, pois o Ratos tem um nome forte no exterior. Se pintasse uma boa proposta para fazer uma versão em inglês do Século Sinistro ou até de um álbum mais antigo, como o primeiro e clássico Crucificados Pelo Sistema, seria algo a se pensar?
Boka: Bem, esta é mais parte do Gordo, mas na real é que o Ratos não soa bem em inglês, por mais que ficasse legal e o público de fora não entenda o português, o timbre da voz muda e o Gordo não tem tanta fluência assim no inglês pra fazer isso, acho que hoje em dia tornou-se irrelevante pra banda cantar em outra língua.
Morticínio Produções: Em 2012, em um show do Ratos na cidade de Leme, interior de São Paulo, logo no início do show, provavelmente ainda na primeira música, testemunhei um dos presentes proferindo algumas ofensas e provocações à banda. No mesmo ano em Uberlândia/MG, outro cidadão fez uso da mesma prática e, pior, ainda subiu no palco para brigar com João Gordo. A pancadaria tomou conta do local e o cara acabou levando a pior. Esse tipo de provocação ainda acontece com muita frequência nos shows do Ratos?
Boka: Na verdade, uma vez ou outra acontece um episódio destes. Daí a gente comenta durante uns 2 ou 3 dias e esquece. Sempre tem alguém que está chapado e que passa um pouco do limite ou que está no lugar errado e acaba se exaltando.
Morticínio Produções: Vocês chegaram a ouvir o comentário sensacionalista (tinha até música de suspense de fundo) de uma rádio local, criticando o “Ratos DO Porão” (sic) pela atitude? O vídeo com o áudio está no Youtube.
Boka: Sim, achamos engraçado. Só isso.
Morticínio Produções: A música Viciado Digital fala um pouco sobre o que a internet tem se tornado. Muitas pessoas com necessidade de exposição e de provar aos outros (até para desconhecidos) que são pessoas boas ou como são fodas em alguma coisa. Fora isso, é também uma terra de conflitos, onde raramente uma opinião diferente é respeitada. Especialmente opiniões políticas. Vocês sofrem com essa intolerância de opiniões nas redes sociais? Será que há algo de bom a ser tirado dessa situação como um todo?
Boka: Todo esse fenômeno digital é novidade para todo mundo, acho que as pessoas de um modo geral estão aprendendo e descobrindo como lidar com a internet e redes sociais, mas acho que existe um vicio sim, meio que estar online por estar, etc… isso não é saudável, me incomoda um pouco.
Muita gente fala bem ou mal da gente ou do nosso trabalho, isso é normal, nunca seremos unanimidade, isso é impossível, quem não sabe lidar com isso não pode tocar numa banda, isso vale pra todo mundo, não somente pra gente.
Na verdade é um período de muitas mudanças e a internet em si, mudou as relações sociais e de trabalho, a maneira como agimos, etc… Eu não costumo entrar em embates online, principalmente com quem não conheço, cada um é cada um.
Morticínio Produções: Suas letras abordam os problemas políticos e sociais do Brasil e do mundo há mais de trinta anos. E algumas letras, escritas há muito tempo, infelizmente ainda soam atuais no nosso país. Será que algum dia essas letras se tornarão uma história distante? Ou melhor, acreditar que o Brasil vai melhorar, realmente é uma ilusão?
Boka: A parte lírica do Ratos é meio que um jornalismo punk, não é politizada ou ideológica em sua grande maioria, Gordo sempre deixou isso claro, não existe uma “bandeira”.
A história se repete sempre, isso é estudo na filosofia em geral, vivemos hoje em um mundo capitalista, mas ele não pode ser perpétuo, algum dia vai desmoronar e pode ser que venha algo ainda pior ou melhor, a história prova que os impérios não duram pra sempre certo?
Eu tenho uma visão muito específica e utópica sobre política, as melhoras pontuais são necessárias e as apoio obviamente, meu pensamento é progressista neste sentido, mas quanto a governantes e leis sou um descrente.
Morticínio Produções: Se apresentar no Rock in Rio seria uma boa para vocês? Há chances disso acontecer?
Boka: Recebemos uma proposta uma vez e não agradou, preferimos não fazer.
Tocar em um Rock in Rio poderia sim ser legal, mas não mudará nossa vida em nada, os festivais de metal e punk na Europa ou EUA são bem mais legais e tem a ver com o que pensamos de um festival, muita gente coloca uma participação no Rock in Rio como um reconhecimento, um “prêmio”, não vejo desta forma, puro negócio, normal, não poderia ser diferente. Não que outros festivais não sejam negócio também, mas eles têm uma linha a seguir que tem mais a ver.
Morticínio Produções: E quanto aos festivais mais underground no Brasil, onde vocês já tocaram, como Roça ‘n’ Roll, Otacílio Rock Festival e Maniacs Metal Meeting. Como são esses eventos pra vocês?
Boka: Gosto muito de todos, principalmente o Abril Pro Rock e o Goiânia Noise.
Morticínio Produções: Vocês sempre tocaram covers de bandas que são fãs ou que os inspiraram de alguma maneira. Em 2013, trinta e seis bandas se reuniram para realizar um tributo merecido e memorável, o Ratomaniax, que reuniu grandes nomes do cenário nacional, como Violator, Ação Direta, Delinquentes, Claustrofobia, Korzus e muitas outras. De quem foi a ideia do tributo e qual foi a reação da banda ao ver o resultado final?
Boka: Este tributo foi idealizado e feito por um fã da banda, Eduardo que hoje é baterista do Periferia S.A., acho demais o tributo, gostei muito!
Morticínio Produções: Até o Hillbilly Rawhide entrou na dança, com a versão mais inusitada do tributo…
Boka: Inusitada não sei, mas gosto muito do Korzus e do Social Chaos,
Morticínio Produções: Ainda falta alguma coisa para vocês alcançarem?
Boka: Faltar não falta, mas é sempre muito bom fazer sons novos e gravá-los, portanto ainda tem lenha pra queimar.
Morticínio Produções: Muito obrigado pelo tempo cedido. Foi uma honra entrevistá-los.
Boka: Obrigado!